A disputa judicial entre a Prefeitura de Campo Grande e o Banco Master começa a afetar diretamente servidores municipais. Descontos relacionados a empréstimos e cartões consignados voltaram a aparecer em contracheques, inclusive em casos de contratos que já haviam sido quitados.
O problema está relacionado a valores descontados dos salários dos servidores que, em vez de serem repassados ao banco, passaram a ser depositados em uma conta judicial. A medida foi adotada pela Prefeitura para tentar garantir a recuperação de recursos aplicados pelo Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG) no Banco Master.
O conflito começou após o Banco Central determinar, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master. Antes disso, o IMPCG havia aplicado cerca de R$ 1,2 milhão em Letras Financeiras da instituição.
Diante do risco de perder o dinheiro, a Prefeitura e o instituto previdenciário recorreram à Justiça em dezembro de 2025. Uma decisão liminar autorizou a retenção das parcelas dos consignados descontadas dos servidores e determinou que os valores fossem depositados judicialmente.
Ao todo, aproximadamente R$ 1,4 milhão foi colocado à disposição da Justiça, valor atualizado correspondente ao investimento feito pelo fundo previdenciário.
Banco pede liberação dos valores
O Banco Master recorreu ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) e quer que o dinheiro depositado judicialmente seja liberado.
A instituição argumenta que a retenção das parcelas prejudica o processo de liquidação do banco e pode aumentar as dívidas dos servidores, já que os valores não pagos podem gerar novos encargos.
A Prefeitura, por outro lado, defende que o bloqueio seja mantido. Segundo o município, a medida é necessária para proteger os recursos do fundo previdenciário e evitar prejuízos aos cofres públicos.
Enquanto o recurso não é decidido, os valores continuam depositados em conta judicial. Os servidores também permanecem com restrições relacionadas às margens consignáveis e podem enfrentar descontos referentes a contratos que foram quitados ou estão sob discussão judicial.
Justiça dá prazo para as partes
Em decisão publicada nesta terça-feira (8), o juiz Claudio Müller Pareja determinou que a Prefeitura, o IMPCG e o Banco Master apresentem, no prazo de cinco dias, quais pontos do processo ainda precisam ser comprovados.
As partes também deverão indicar quais provas pretendem apresentar e explicar por que elas são necessárias. O juiz pediu ainda que sejam apontadas as questões que já são consideradas consensuais e aquelas que continuam sendo discutidas.
Caso alguma das partes queira apresentar testemunhas ou solicitar depoimentos em audiência, os nomes deverão ser informados dentro do prazo. O descumprimento pode fazer com que a parte perca a oportunidade de apresentar novas provas.
Servidora relata desconto mesmo após quitar empréstimo
A situação já trouxe problemas para servidores. Uma funcionária municipal contou que quitou antecipadamente, em janeiro de 2026, um empréstimo do CredCesta, operação vinculada ao Banco Master.
Mesmo assim, ao receber o contracheque de agosto, ela encontrou um desconto de R$ 293,46 relacionado a um cartão de benefícios da instituição.
Segundo a servidora, ao procurar informações na Prefeitura, foi orientada a buscar atendimento diretamente com o banco. Ela também tentou contato com o Banco Central e com os canais disponibilizados pelo Master, mas não conseguiu solucionar o problema.
O caso chama atenção porque, segundo o relato, o contrato já havia sido encerrado meses antes.
Sistema de cobrança voltou a gerar descontos
Após a liquidação do Banco Master, os arquivos e dados relacionados ao convênio com a Prefeitura foram novamente processados pela instituição. As listas de cobrança passaram a ser enviadas outra vez ao setor responsável pela folha de pagamento.
Sem uma verificação individual dos contratos, alguns descontos acabaram reaparecendo nos contracheques durante 2026, atingindo servidores que já haviam encerrado suas obrigações.
Além do problema envolvendo os consignados, a relação entre a Prefeitura, o IMPCG e o Banco Master também é investigada pela Polícia Federal na Operação Presciência.
A investigação busca esclarecer as circunstâncias e a legalidade da aplicação de recursos do fundo previdenciário municipal em Letras Financeiras do banco antes da intervenção do Banco Central.