Sexta-feira, 10 de abril de 2026

Intervenções em praias podem causar impactos ambientais, alertam especialistas

Obras para conter avanço do mar podem alterar ondas, correntes e qualidade da água
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Especialistas alertam que intervenções realizadas para conter o avanço do mar no litoral brasileiro, como engordas artificiais de praias, construção de molhes de pedra e muros de contenção, podem gerar impactos ambientais e alterar a dinâmica natural das áreas costeiras.

Na semana passada, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis multou o governo do Paraná em R$ 2,5 milhões pelo uso de sacos plásticos com areia para tentar conter a erosão no litoral de Matinhos.

A técnica de ampliação artificial da faixa de areia, conhecida como “engorda de praia”, tem sido adotada em diversas cidades litorâneas. Municípios como Balneário Camboriú e Piçarras se tornaram exemplos desse tipo de intervenção.

Alterações na dinâmica do mar

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina apontam que essas obras podem modificar o comportamento das ondas e das correntes marítimas. Segundo os estudos, a mudança na circulação da água pode afetar a qualidade do mar e até aumentar o risco de afogamentos em áreas recentemente alargadas.

O professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, explica que intervenções emergenciais muitas vezes resolvem problemas locais, mas acabam gerando impactos em outros pontos do litoral.

Segundo ele, obras desse tipo podem reter areia em determinadas áreas, enquanto intensificam a erosão em trechos vizinhos, criando um efeito em cadeia que exige novas intervenções ao longo do tempo.

Ocupação irregular do litoral

Pesquisadores também apontam que a ocupação de áreas naturalmente vulneráveis contribui para o agravamento do problema. Em alguns pontos do litoral da Bahia e de São Paulo, por exemplo, empreendimentos turísticos foram construídos após a retirada de restingas e dunas, ecossistemas que funcionam como barreiras naturais contra o avanço do mar.

Com o aumento da erosão, muitos desses locais passaram a erguer muros de contenção para proteger construções próximas à praia. Em alguns casos, porém, isso resulta na perda quase total da faixa de areia durante a maré alta.

Soluções baseadas na natureza

Especialistas defendem o uso de soluções baseadas na natureza para a proteção do litoral. A bióloga Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, destaca que ecossistemas como manguezais, restingas, dunas e recifes de coral desempenham papel fundamental na proteção costeira.

Esses ambientes ajudam a absorver a energia das ondas, manter os sedimentos no lugar e reduzir o impacto de tempestades.

Além disso, estudos indicam que os recifes de coral do Nordeste brasileiro evitam até R$ 160 bilhões em prejuízos graças à função natural de proteção da costa. Já os manguezais, além de armazenarem grandes quantidades de carbono, sustentam cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas comercialmente no país em alguma fase do ciclo de vida.

Para os pesquisadores, ampliar o planejamento urbano e a preservação desses ecossistemas é essencial para proteger o litoral diante do avanço das mudanças climáticas. (Agencia Brasil).

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