Um esquema criminoso digno de filme de espionagem — mas que atacava o coração da meritocracia brasileira. A Polícia Federal revelou uma organização que fraudava concursos públicos em todo o país, cobrando até R$ 500 mil por vaga. O grupo, comandado pela família Limeira, atuava a partir de Patos (PB) e usava tecnologia de ponta, como pontos eletrônicos implantados cirurgicamente, além de acesso antecipado aos gabaritos.
O esquema, conhecido como “Máfia dos Concursos”, colocou em dúvida a lisura de processos seletivos de órgãos federais e estaduais, como Polícia Federal, Caixa Econômica, Banco do Brasil, universidades e o Concurso Nacional Unificado (CNU).
💰 A venda de vagas públicas
Segundo a PF, a quadrilha tratava aprovações como mercadorias. O preço variava conforme o cargo: de R$ 50 mil a R$ 500 mil, pagos em dinheiro vivo, ouro, carros ou até serviços odontológicos.
A “garantia de aprovação” vinha com um pacote tecnológico: dispositivos eletrônicos invisíveis, mensagens codificadas e dublês — pessoas contratadas para fazer as provas no lugar dos candidatos.
Em alguns casos, candidatos obtinham gabaritos completos antes da prova. Para mostrar que o método funcionava, os próprios líderes do grupo se inscreviam nos concursos e eram aprovados.
🧠 O comando familiar
O chefe do esquema, segundo a PF, é Wanderlan Limeira de Sousa, ex-policial militar expulso da corporação em 2021. Ele coordenava toda a logística: negociava com candidatos, distribuía os gabaritos e organizava os pagamentos.
Ao seu lado, estavam familiares:
- Valmir Limeira de Sousa – irmão, aprovado no CNU com gabarito idêntico ao de Wanderlan.
- Antônio Limeira das Neves – outro irmão, acusado de usar R$ 400 mil emprestados por Thyago “Negão” Andrade para pagar a vaga da filha.
- Larissa de Oliveira Neves – sobrinha, usada como “vitrine” após ser aprovada no CNU.
- Geórgia de Oliveira Neves – cunhada, sem emprego desde 1998, que movimentou R$ 419 mil em espécie, segundo o COAF.
- Wanderson Gabriel Limeira, filho de Wanderlan – seria o responsável técnico pela parte eletrônica das fraudes.
Como o golpe funcionava
As provas revelaram uma estrutura criminosa com profissionais de saúde que implantavam pontos eletrônicos nos ouvidos dos candidatos, permitindo comunicação direta com a quadrilha durante a prova.
Outros métodos incluíam:
- Substituição por dublês treinados para garantir notas altas;
- Envio de gabaritos por mensagens criptografadas;
- Fraude nas folhas de resposta, inclusive com provas de tipos diferentes, mas com erros idênticos.
A chance de coincidência entre os gabaritos de quatro investigados foi calculada como “a mesma de alguém ganhar a Mega-Sena 19 vezes seguidas”.
Lavagem de dinheiro e fachada
Para esconder o dinheiro sujo, o grupo usava laranjas, imóveis, carros e clínicas odontológicas.
Uma delas, pertencente ao policial Ariosvaldo Lucena, em Natal (RN), seria fachada para movimentações ilegais.
Pagamentos também eram disfarçados com a compra de veículos em nome de terceiros e transferências em dinheiro vivo.
Outros envolvidos
Além da família Limeira, a PF cita:
- Ariosvaldo Lucena de Sousa Júnior – policial militar e dono da clínica usada para lavar dinheiro;
- Thyago “Negão” Andrade – financiava candidatos e controlava pagamentos;
- Laís Giselly Nunes de Araújo – companheira de Thyago, suspeita de participar de 14 fraudes;
- Luiz Paulo Silva dos Santos – envolvido em mais de 67 concursos fraudulentos em todo o país.
As provas da PF
As investigações reuniram gabaritos idênticos, áudios, mensagens e comprovantes bancários.
Em uma conversa interceptada, Wanderlan e o filho falam em “garantir a comissão” no CNU.
Relatórios financeiros mostram movimentações incompatíveis com as rendas declaradas e compras feitas dias após as provas.
⚖️ Operação “Última Fase”
A operação da PF, deflagrada em 2 de outubro, resultou em três prisões preventivas, buscas em Patos e Recife e no bloqueio de bens.
Também foi suspensa a posse de candidatos suspeitos e afastados servidores ligados ao grupo.
O juiz Manuel Maia de Vasconcelos Neto, responsável pelo caso, afirmou que o esquema tinha “profissionais de várias áreas fazendo provas no lugar dos contratantes”.
E os investigados?
Todos os acusados negam envolvimento.
As defesas dizem que há apenas “indícios” e prometem comprovar inocência.
Wanderlan e seu filho ainda não se pronunciaram.
Já a defesa de Larissa e Geórgia afirma que estão colaborando com as investigações.
Indignação nacional
O caso causa revolta entre concurseiros e servidores públicos que dedicam anos de estudo para conquistar uma vaga de forma honesta.
Enquanto milhares perdem sono e economias para mudar de vida, uma rede criminosa transformou concursos em negócio milionário, vendendo cargos públicos como se fossem mercadorias. (G1)