Sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Crédito rural cai 20% em MS e dívidas no campo chegam a R$ 12,8 bilhões

Com juros elevados, custos de produção acima de R$ 5 mil por hectare e menos financiamentos, produtores enfrentam dificuldades para custear a safra 2026/2027
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Os produtores rurais de Mato Grosso do Sul enfrentam um cenário de dificuldades financeiras, com redução na oferta de crédito, aumento das dívidas e custos elevados para manter a produção. Na safra 2025/2026, as contratações de crédito rural no Estado caíram 20,2%, totalizando R$ 14,9 bilhões, segundo levantamento da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS).

Ao mesmo tempo, R$ 12,8 bilhões em operações de crédito rural estavam classificados como problemáticos em agosto de 2026, o equivalente a 27,1% da carteira estadual. O indicador reúne financiamentos renegociados, prorrogados, inadimplentes ou em atraso.

Os dados fazem parte do Informativo Econômico 16/2026, elaborado pela Aprosoja/MS com informações do Banco Central e da Serasa Experian.

Produzir soja custa mais de R$ 5 mil por hectare

A redução dos financiamentos ocorre justamente quando os produtores precisam de grandes volumes de recursos para iniciar e manter as lavouras.

Para a safra 2026/2027, o custo estimado para produzir um hectare de soja em Mato Grosso do Sul é de R$ 5.024,82. Considerando uma área de 4,874 milhões de hectares, a necessidade total de recursos chega a aproximadamente R$ 24,5 bilhões.

Desse valor, cerca de R$ 15 bilhões seriam destinados à compra de sementes, fertilizantes e defensivos agrícolas.

Entretanto, os financiamentos bancários de custeio da soja somaram aproximadamente R$ 3,35 bilhões na safra anterior, volume equivalente a apenas 13,7% do custo total estimado para a próxima temporada.

Para cobrir a diferença, os agricultores precisam utilizar recursos próprios ou buscar alternativas, como a troca de insumos por parte da produção futura, as Cédulas de Produto Rural (CPRs) e o crédito oferecido por fornecedores.

Essas opções ajudam a manter as atividades, mas podem envolver juros maiores, prazos menores e riscos financeiros adicionais.

Financiamento para plantar soja encolhe

O levantamento mostra que a queda no crédito também atingiu diretamente o financiamento das lavouras.

Na safra 2025/2026, os recursos destinados ao custeio agrícola em Mato Grosso do Sul caíram para R$ 5,6 bilhões, ante R$ 10,8 bilhões em 2022/2023.

No financiamento específico da soja, as contratações passaram de R$ 6,4 bilhões em 2023/2024 para R$ 3,4 bilhões em 2025/2026. A área financiada diminuiu de 1,54 milhão para 710 mil hectares.

Além disso, o número de operações de crédito rural caiu de 36 mil para 28,5 mil no mesmo intervalo.

A retração também continua no início da safra 2026/2027. Entre julho e setembro de 2026, o Estado registrou R$ 3,1 bilhões em contratações, uma queda de 29% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Juros elevados aumentam a pressão sobre os produtores

Outro problema apontado pela Aprosoja/MS é o custo dos financiamentos. Na safra 2025/2026, a taxa média das operações de custeio em Mato Grosso do Sul chegou a 12,1% ao ano, acima da média nacional, de 10,5%.

Em 2020/2021, a taxa média estadual era de aproximadamente 5,9% ao ano.

Com os juros mais altos, os produtores precisam reservar uma parcela maior da receita para pagar os financiamentos. Ao mesmo tempo, as instituições financeiras passaram a exigir mais garantias e adotar critérios mais rigorosos para liberar novos recursos.

Segundo a entidade, a redução das linhas de crédito com juros controlados e a diminuição de financiamentos ligados a recursos de mercado também contribuíram para limitar o acesso ao dinheiro.

Dívidas em atraso quase dobraram em um ano

A situação financeira do setor aparece também nos dados sobre inadimplência.

Em agosto de 2025, as operações de crédito rural em atraso em Mato Grosso do Sul somavam R$ 1,76 bilhão. Um ano depois, o valor chegou a R$ 3,47 bilhões, quase o dobro.

No mesmo período, a parcela considerada problemática alcançou 27,1% da carteira estadual, acima da média brasileira, de 23,8%.

O aumento das dificuldades de pagamento pode tornar ainda mais difícil a contratação de novos empréstimos, já que os bancos podem reduzir limites de financiamento ou exigir garantias adicionais.

Pedidos de recuperação judicial aumentam 118%

Outro sinal da pressão sobre o agronegócio é o crescimento dos pedidos de recuperação judicial.

Mato Grosso do Sul registrou 216 solicitações em 2025, alta de 118% em relação ao ano anterior, conforme dados da Serasa Experian reunidos no estudo.

No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 38 pedidos, contra 25 no mesmo período de 2025, um aumento de 52%.

A recuperação judicial permite que empresas e produtores elegíveis busquem reorganizar suas dívidas conforme as regras legais. No entanto, o processo pode dificultar a obtenção de novos financiamentos e levar fornecedores a exigir pagamentos antecipados.

Por isso, a Aprosoja/MS recomenda que a medida seja considerada depois da avaliação de alternativas de renegociação e prorrogação dos débitos.

Plano Safra tem mais recursos, mas menos dinheiro para custeio

O Plano Safra 2026/2027 foi anunciado com R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, aumento nominal de 1,7% em relação ao ciclo anterior.

Apesar disso, os recursos destinados ao custeio e à comercialização caíram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões.

Já os recursos para investimentos aumentaram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões.

A diferença é importante porque o custeio financia despesas imediatas, como sementes, fertilizantes e defensivos. Já o crédito para investimentos atende a outras finalidades, como aquisição de máquinas e melhorias na estrutura das propriedades.

Assim, mesmo com o aumento do orçamento total anunciado, a disponibilidade de recursos para financiar o plantio continua sendo uma preocupação para o setor.

Renegociação de dívidas é uma das alternativas

Entre as medidas citadas no levantamento está uma linha de renegociação de dívidas rurais, com condições específicas para produtores que comprovem perdas de renda e atendam aos critérios estabelecidos nas normas.

Segundo o informativo, a iniciativa prevê prazo de pagamento de até oito anos, com dois anos de carência. As taxas indicadas são de 6% ao ano para beneficiários do Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais produtores, respeitadas as condições de enquadramento.

O prazo de contratação informado no estudo é 12 de novembro de 2026. Os interessados devem confirmar as regras vigentes, os documentos necessários e a disponibilidade de recursos junto às instituições financeiras participantes.

A Aprosoja/MS também defende a ampliação das linhas de renegociação, o fortalecimento do crédito com juros controlados e medidas que facilitem o acesso dos produtores ao financiamento.

Próxima safra exige planejamento financeiro

Diante da combinação de dívidas elevadas, crédito mais restrito e custos de produção crescentes, os produtores precisam organizar os vencimentos, avaliar as condições de financiamento e buscar alternativas antes que as dificuldades de pagamento se agravem.

O principal desafio para a safra 2026/2027 será garantir recursos suficientes para plantar e conduzir as lavouras, ao mesmo tempo em que os produtores tentam reorganizar as dívidas acumuladas. A situação preocupa o agronegócio sul-mato-grossense, setor importante para a economia e a geração de empregos no Estado.

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